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#10 A beleza que existe em estar completamente perdido e no nosso limite

Atualizado: 19 de Abr de 2018



Invariavelmente, a vida nos impõe diversas situações que nos deixam completamente perdidos, nos sentindo no nosso limite. Não importa o que seja, mais cedo ou mais tarde acontece para todos nós. É demais, e não fazemos ideia do que fazer com isso, a não ser nos sentir mal com nós mesmos. Raiva, angústia, ciúmes, frustração, medo... quantas coisas surgem, e aprendemos a detestar todas elas. As afastamos na mesma hora, tentamos desesperadamente nos distrair e fazer qualquer fuga, para qualquer lugar familiar e confortável, inclusive dentro de nossas próprias mentes. E encontramos, em nossos velhos hábitos mentais, esse “lugar seguro”, que nos ilude e muitas vezes nos mantém ainda mais aprisionados. E puxa, quanta energia gastamos para nos manter aí! E assim, endurecemos cada vez mais.


Quando chegamos em nosso limite, somos levados pela esperança ou pelo medo. Esperança que as coisas se resolvam, esperança que todo o desconforto passe, esperança que aconteça qualquer coisa melhor do que estamos vivendo no momento mas que não está ali, está no futuro. E medo, medo de tudo, que assola, que paralisa. Assim, a mente dispara, entra em mais uma briga, disputada entre o apego e a aversão.


E se, pelo menos por um instante, fossemos capazes de ter uma nova atitude mental? E se pudéssemos ver essas situações como ensinamentos, e não como algum tipo de obstáculo ou punição?


Todos os dias, a vida nos fornece preciosas oportunidades de abertura ou fechamento, principalmente quando nos deparamos com algo que não sabemos lidar. As emoções provocadas nessas situações podem nos indicar onde estamos nos detendo, como se fossem mensageiros nos contando de maneira muito clara – e assustadora – onde estamos presos, indicando um caminho para a mudança. E, por isso, esse exato momento é o mestre perfeito. E, para onde formos, estará lá.


Em seu livro “Quando Tudo se Desfaz”, Pema Chodron nos convida a abraçar e acolher essa situações, tendo a meditação como grande aliada. Meditar permite que possamos ver exatamente o que está acontecendo com nossos pensamentos e emoções. Vemos claramente como fugimos, distraímos e voltamos para nossos velhos hábitos mentais. Aprendemos a simplesmente abrir e relaxar. E o que acho mais bonito: criamos um espaço seguro para encarar de frente, ver o que está aqui e nos sentir inteiros. É quase como um “Eu estou vendo você, e estou aqui com você!”, com um senso bastante fraterno. Cultivamos coragem e compassividade humanas.


Quando estamos no nosso limite, a meditação favorece a abertura e disposição para conhecer esse lugar inteiramente, sem alimentar ou reprimir. É simplesmente estar ali, nos tornando amigos de nossos medos e esperanças.


No começo, apenas aprendemos a ver claramente, livre de julgamentos, reconhecendo o que surge com abertura e simplesmente deixando nossos pensamentos passarem, dissolverem, retornando então para o momento presente. Com o tempo, aprendemos a nos relacionar com as emoções em nosso dia a dia, e quando mal percebemos, paramos de lutar e relaxamos, cessando o diálogo interior. E, por fim, aprendemos a ser pessoas mais amorosas e compassivas.


Nesta meditação focada no momento presente, não estamos tentando alcançar nenhum grande estado, assumir “formas e estereótipos”. É simples, muito simples. Estamos apenas aprendendo a nos unir à nossa experiência presente, seja ela qual for. Mesmo quando nossa experiência seja perceber que, naquele momento, é impossível encarar o que está acontecendo.


Colocando isso em prática, aprendi o quanto é possível se sentir inteira nos momentos em que me senti mais despedaçada, tudo coexistindo dentro de mim. Ter maior senso de clareza dos processos da vida, e, principalmente, um grande respeito e cuidado com o que estava vivendo. E como é bonito esse paradoxo: parar de lutar e se abrir, aí reside a mudança.


- Comentários sobre o capítulo “Este exato momento é o mestre perfeito” do livro “Quando tudo se desfaz” de Pema Chodron, editora Graphius, 1997.


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